Concorrentes ? Não, com correntes de estudo similar, esta é a verdade. Quanto maior for a proximidade entre o fisioterapeuta e o preparador físico, maior a chance do atleta (que é o produto principal) ter sua carreira estendida e sem necessidade de pausas inesperadas (lesões).
Tenho ouvido falar muito no aspecto teórico da multidisciplinaridade do esporte de alto rendimento, mas o que vejo na prática, é um grupo de especialistas que trabalham muito à distância um dos outros. Quando, se deixarmos um pouco de lado os egos e partimos para a junção dos conceitos em comum o que encontramos, é um pouco do que vou narrar nas estrofes seguintes.
Tive excelentes experiências no trabalho em conjunto com os profissionais da fisioterapia, uma delas foi no Sport Clube Corinthians Paulista no futebol profissional nas temporadas de 2005 e 2006. Contratado para realizar a coordenação do trabalho de força e potência dos atletas daquele grupo, a priori minhas funções estavam mais ligadas ao fisiologista, Dr. Renato Lotufo, que controlava as cargas de treino e direcionava as necessárias avaliações do grupo, ao preparador físico Fabio Masherajhian, que dispunha das necessidades dos atletas e me relatava, bem como organizava suas sessões de treino afim de que não supertreinássemos nossos jogadores, e, claro ao Antônio Lopes, que, como técnico era o pajé desta tribo e queria ver seus comandados oferecendo o máximo em campo.
Porém, após conhecer um dos mais geniais profissionais que eu conheci no esporte, o fisioterapeuta e, também educador físico, o José Alberto Fregnani Gonçalves, ou simplesmente Beto. O Beto logo de cara me propôs de fazer uma transição funcional dos atletas do departamento médico. Ele fazia o que chamávamos de recuperação atlética, deixava o atleta pronto para voltar aos treinos, só que, com a larga experiência dele , percebeu que os atletas apresentavam déficit de condicionamento, e, que era complicado pro preparador físico dar atenção especial a este atleta, tendo em vista que um plantel é composto de mais de 30 atletas normalmente. Desta forma, os atletas vinham tratar estes possíveis déficits (velocidade, força, potência), comigo. Isso funcionou muito, fechou-se então uma lacuna da multidisciplinaridade. Junto disso ele me procurou para discutir uma forma de inserirmos um circuito de prevenção de lesões, unindo o nosso conhecimento no "core" training e na proprioceção. Montamos nosso circuito e eu consegui junto a comissão técnica aplicar nos aquecimentos diários ou mesmo nas minhas unidades de treino. Foi muito proveitoso e exitoso, e daí para frente, comecei a levar mais a sério a idéia da prevenção de lesões e o trabalho em dupla com o fisioterapeuta. Durante 2008/2009, estive à frente da coordenação do mesmo trabalho na Sociedade Esportiva Palmeiras, categoria de base do futebol. Já mais experiente, e, até com certo renome, fui encontrar um velho amigo meu, o fisiologista Marco Schiavo Reis, o Magoo, que me apresentou uma proposta de trabalho de controle de carga de treino e prevenção de lesões, muito interessante. Criamos alguns protocolos, e junto dos fisioterapeutas, Thiago Lopes de Carvalho,e, Luciano Ricardo Orlando, aplicamos com muito afinco todo nosso conhecimento.
Com grande individualização da carga, utilizando circuitos de propriocepção como unidade de treino inclusive, com grande aproximação das idéias, treinamento isocinético (comandado pela fisioterapia), transição funcional dos atletas, etc.
Mais uma vez a combinação teoria + prática deu certo. É fato ressaltar que tivemos dois coordenadores lá que fizeram isso acontecer, o Jorginho, e o Biasotto. não adiantaria só conhecimento se a coordenação não desse liberdade para execução. Agora estou fora do futebol, no tênis com atletas de ponta, como Thomaz Bellucci, Ricardo Hocevar, Caio Zampieri, André Ghem, e com o português Gastão Elias. Aliás escrevo isto de Portugal, pois estou aqui em conjunto com os fisioterapeutas portugueses, trabalhando na transição funcional de um problema de coluna que tirou o gastão por um ano do circuito profissional. Como se vê, nem a distância impede a fusão de idéias,que além de importantes são necessárias. A multidisciplinaridade é como a globalização, se existe algum limite, está em nós, não no tempo-espaço.
Como diria Einstein, "A mente aberta para uma idéia nova, jamais regressa ao tamanho original".