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COLUNAS

MMA: Esporte violento?

por Fábio Ramos Costa
 

Quando em 2004 fui convidado pelo professor Luiz Dórea pra ser médico de sua equipe na academia Champion não imaginava que aquela luta em que "valia tudo" iria se tornar um dos esportes mais competitivos e assistidos do mundo.

 

O MMA (Mixed Martial Arts) hoje é o segundo esporte mais assistido do Brasil, e claro que tudo que é novo, traz em si algumas desconfianças. Sendo o MMA a bola da vez, os críticos  pregam que ele é um esporte muito violento, chegando ao cúmulo de alguns dizerem que nem esporte ele devia ser considerado.

 

Só mesmo desconhecendo os bastidores e as regras deste esporte se pode imaginar que ele não seja em sua magnitude o esporte do século. Suas regras, seus limites são muito bem especificados, tornando-o um esporte absolutamente seguro e regular. Milenarmente, se assim posso falar, os homens já se degladiavam, antes sem regras, mas como tudo no mundo e na história evolui, chegamos ao atual MMA.

 

Como todo esporte ele tem suas lesões especificas e em função de boa parte destas lesões acontecerem na face, isso, às vezes, assusta ao expectadores. Me perguntaram se achava o esporte agressivo, e minha resposta foi categórica: Não! Explico porque: para que eu possa julgar a  agressividade de qualquer coisa, até mesmo de um esporte tenho que me basear em dados e comparações.

 

Na última década venho atuando junto ao futebol, onde sou Medico do Esporte Clube Bahia. Se considerarmos do ano de 2006 pra cá, e comparar o futebol com MMA, posso trazer um dado alarmante. No time do Bahia realizei mais de 30 cirurgias em função das mais diversas lesões: joelho, tornozelo, antebraço, ombro. Já na equipe do professor Dórea, não foram mais do que 5. Olha que a equipe é muito grande. Dentre esses pacientes pude acompanhar Júnior dos Santos "Cigano", nosso campeão mundial [desde o momento fatídico de sua lesão 12 dias antes de disputar o título mundial, quando o examinei ainda deitado no tatame e tive a certeza da lesão do menisco; para tranquilizá-lo, listei os jogadores de futebol que tinham sofrido lesões semelhantes no ano anterior, rapidamente listei na cabeça 5 atletas]. Assim pude perceber o quanto agressivo é o futebol. Sorte termos os fisioterapeutas desportivos, como o meu colega Arivan Gomes (fisioterapeuta da equipe Nordeste MMA e do Junior Cigano), que muitas vezes oferecem a assistência imediata nos momentos da lesão.

 

Claro que ao ver uma laceração (corte) na face com sangramento, esta assusta muita mais, mas o fato de assustar não significa que o esporte seja mais agressivo. Comparar o MMA com o Futebol Americano por exemplo é como fazer uma luta de Davi com Golias, o futebol americano certamente lesiona muito mais que o MMA e afasta atletas de sua carreira profissional muito mais constantemente e é muito menos criticado. A verdade é que, toda vez que se retrata um esporte de "luta", a agressividade vem à tona, pois todos imaginam uma disputa pessoal e sangrenta.

 

Também seria demagogia de minha parte falar que o MMA é inofensivo, claro que não. Hoje uma estatística feita por mim em mais de 20 eventos de MMA, onde coordenei o departamento medico aqui na Bahia, mostrou que 66% das lesões foram cortes, 24% contusões e 10% entorses, as quais envolviam as chaves de braço, joelho, tornozelo e outras. E, sempre o que mais choca, são aquelas contusões na face onde formam um grande hematoma deformando, muitas vezes, o rosto do atleta. Claro que são lesões desagradáveis de se ver, mas são lesões na sua grande maioria, superficiais de fácil tratamento onde muitas vezes apenas a crioterapia é o tratamento indicado.

 

O que vemos é que,  ao se tornar atleta, seja qual for o esporte, não pensamos se ele vai ou não se lesionar, mas sim quando. As lesões esportivas são tão frequentes que hoje virou um sub-especialidade da ortopedia, chamada Traumatologia Esportiva. Atleta, na essência da palavra, que não quer se lesionar deve procurar o Xadrez ou Dama como esporte, pois nestes sim as lesões quase inexistem, ou melhor, eles podem desenvolver LER, lesões por esforço repetitivos.

 

Brincadeiras a parte, o MMA vem se tornando cada vez mais, um esporte competitivo e os treinos são cada vez mais intensos. O que vejo é que estatisticamente a maior parte das lesões não ocorre em eventos oficiais mas sim no próprio treinamento do lutador. Hoje o que não se pode é negligenciar os treinos, pois além de uma equipe preparada, os devidos equipamentos de segurança. A proteção nos treinos é fundamental, grandes marcas mundiais como Everlast e Pretorian têm investido em equipamentos cada vez mais seguros que minimizam esses riscos, cabe ao esportista procurar profissionais que tenham capacidade, formação e infraestrutura para os treinar.

 

Outra grande mudança que vem ocorrendo são as alterações das regras, o que tornam cada vez mais seguro a prática e a competição deste esporte.

 

Fazendo um paralelo com o futebol, quando eu era menino, lembro que não era obrigatório o uso de "caneleira" já hoje nenhum jogador entra em campo sem. No MMA não é diferente, mas por ser mais novo que o futebol suas regras estão sendo ainda formadas. A criação da Confederação Brasileira de MMA vais ser um grande passo neste sentido. Em conversa com o Carlão Barreto que, juntamente com o Mario Yamasaki vem encabeçando este projeto, tive a certeza de que esta será mais uma vitória do MMA no combate a violência "desleal".

 

O UFC, maior evento de MMA do mundo, ainda demonstrou uma preocupação especial em relação a seus atletas e criou um plano de saúde com seguro que cobre o tratamento desses atletas. Agora se você é atleta de futebol, dependerá muitas vezes da boa vontade de médicos do clube, sendo que a maioria dos clubes de futebol do Brasil não tem um seguro de saúde para os seus atletas. Não quero aqui criticar o futebol, mas mostrar como o MMA vem se espelhando no esporte de maior sucesso pra prolongar a vida esportiva de seu atletas. Hoje grandes nomes do MMA mundial como Rodrigo Minotauro, tem seu fisioterapeuta (Drª Angela Cortes), e fisiologista (Pavanelli). Aqui na Bahia temos implantado essa cultura nos atletas junto com o fisiologista Alexandre Dortas, dando assistência a diversos atletas no intuito de promover saúde e prevenir as lesões.

 

Vejo um esporte promissor que aliado com grandes treinadores, proteções corretas, regras claras e atletas conscientes teremos cada vez menos lesões até mesmo aquelas que tanto impressionam. Sou carateca há 30 anos, pratico boxe há 10 e sou um fã do MMA, como médico sinto muito mais seguro de indicar a meu filho, Bruno de 6 anos, à prática deste esporte do que o futebol, pois nesses poucos anos de vida dele, já o vi quebrar um dedo do pé, jogando futebol, torcer o tornozelo e perder duas unhas e no MMA a única dor dele foi quando, pra não se machucar, teve que bater 3 vezes no chão pedindo pra parar. Doeu, mas foi um bela lição de humildade.

 

Dr. Fabio Costa CREMEB 15998 TEOT 8421
Médico Ortopedista, Especialista pela USP em Joelho,
Cirurgia Artroscópica e Traumatologia Esportiva
Coordenador Médico do Esporte Clube BAHIA
www.traumatologiaesportiva.com.br
fabiocosta123@uol.com.br